7.10.07

Verbo haver

Para a outra vez     

      Num texto datado de 21 de Maio do ano passado, publiquei aqui um texto em que, mais uma vez, chamava a atenção para o uso do verbo haver. Calhou ter sido Jerónimo de Sousa a dizer o disparate: «E se dúvidas houvessem […].» A 30 de Setembro deste ano, um leitor, Pedro Abreu, não ficou, e tem direito a isso, convencido: «Escrevo para pedir que esclareça o erro. Eu não o encontro.» Via-se, e disse-lho numa mensagem de correio electrónico que lhe enviei, que não seria certamente meu leitor, pois eu já tinha referido várias (seis?) vezes o erro. Digo-lhe agora que, antes de me ter deixado o comentário, deveria ter consultado uma gramática. Para consolo deste leitor, devo dizer-lhe que também Camilo escorregou.

«Verbo impessoal pluralizado. A respeito da tendência para a pluralização do verbo impessoal haver, escrevi no Dicionário de Dificuldades:Haver. Este verbo pode empregar-se como auxiliar e com o significado de ter. Neste caso conjuga-se em todas as pessoas: haviam dito, isto é, tinham dito, houveram por bem determinar, etc. Todavia, como verbo principal, a significar existir, é impessoal, quer dizer, só se usa correctamente na terceira pessoa do singular, ainda que o nome seguinte esteja no plural. Posto que o escritor Camilo Castelo Branco haja empregado o verbo erroneamente (‘haviam lágrimas’, etc.), não se deve seguir semelhante prática… “Houveram homens”, etc., em vez de “houve homens”, etc. Evidentemente, semelhante solecismo deve por todos ser combatido… Note-se igualmente que vão também para o singular os verbos que antecedem haver, tais como deixar, dever, começar, poder: deixa de haver festas, e não deixam de haver festas; deve haver boas-vontades, e não devem haver; começa a haver descontentes, mas não começam a haver descontentes; pode haver excepções, e não podem haver excepções”» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 574).

1 comentário:

Ricardo disse...

A regra tem uma explicação etimológica, como de forma bem-humorada esclarece o Professor Custódio Magueijo no artigo "«Houveram pessoas... Mas já não hão!»", publicado no número 25 da revista CLASSICA (http://revistaclassica.googlepages.com/numero25).

Aproveito ainda para lhe dizer, Helder, que me lembrei de si ao ouvir o discurso de António Costa no dia 5 de Outubro. O presidente da câmara dizia, a propósito do estado das escolas de Lisboa, "tratam-se de escolas...". Mais um que não é seu leitor, lembrei-me.

Cordiais cumprimentos!